segunda-feira, 14 de março de 2016

Cinco visões de como os protestos podem impactar o processo de impeachment



Como já havia sendo anunciado há algum tempo, as manifestações antigoverno aconteceram nesse último Domingo (13) e vieram com muita força reunindo centenas de milhares de pessoas em dezenas de cidades pelo país. 

Segundo estimativa do Instituto Datafolha, 500 mil pessoas foram à Avenida Paulista, em São Paulo, no domingo, mais do dobro do que em março de 2015.

Nesse momento cabe a pergunta que, acredito, seja a dúvida de muitos: O que pode acontecer à partir de agora? 



Segundo analistas políticos que foram ouvidos pela BBC Brasil, o crescimento das manifestações embalados por uma série de notícias negativas para a administração Dilma Rousseff, deixa a presidente ainda mais fragilizada diante do processo de impeachment. 

O cientista político Rafael Cortez, da Consultoria Tendências, considera que a forte adesão às manifestações desse domingo são mais um elemento que aumenta o isolamento de Dilma. Hoje, ele calcula que há 55% de chance de o impeachment ser aprovado no Congresso.

Na sua avaliação, esse processo começou três semanas atrás, com a prisão do publicitário do PT João Santana pela operação Lava Jato. De lá para cá, vieram à tona trechos de um suposto depoimento do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) com graves acusações de que a presidente e seu antecessor tinham conhecimento do esquema de corrupção na Petrobras e teriam tentado intervir na Justiça. Para completar, o próprio Lula foi alvo de uma ação da PF e de um pedido de prisão pelo Ministério Público de São Paulo.

Tudo isso, nota ele, culminou numa aproximação entre PMDB e PSDB na última semana. Inclusive, o partido do vice-presidente Michel Temer definiu neste sábado prazo de 30 dias para decidir se deixa o governo.

"A união das lideranças do PSDB (em torno da ideia de impeachment) e um apoio importante do PMDB (a esse processo) mostram o outro patamar que o debate do impeachment atingiu. E aí os protestos reforçam esse movimento que a elite política vem fazendo", nota Cortez.

Na sua avaliação, a continuidade da Lava Jato traz uma limitação para a nomeação de Lula como ministro, mas ainda assim pode ser uma saída para rearticular a base de apoio ao governo.

"O Planalto precisa de um choque político, e a única ação mais forte que me parece disponível é a presença do Lula no ministério".

"A rejeição a Lula já é extremamente elevada entre os apoiadores do impeachment, assumindo ou não um cargo de ministro. Eventualmente, a presença dele pode servir para mobilizar o governismo que hoje é minoritário e desarticulado porque a Dilma não tem uma liderança relevante mesmo dentro de seus apoiadores", acrescentou.



Já o professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP, Pablo Ortellado tem acompanhado as manifestações in loco. 

Ele observou que, apesar do crescimento do protesto, o perfil social dos manifestantes continua sendo o mesmo – classe média alta paulistana, branca, com elevada escolaridade. Mas acredita que isso não deve limitar seu impacto no sentido de tornar a permanência de Dilma ainda mais complicada.


"Foi o maior protesto que já presenciei", contou. "Confirma esse cenário de crise. As forças político-institucionais vão se sentir respaldadas, legitimadas, para continuar na tentativa de remoção da presidente", acredita. 

Por outro lado, acha também, que a presidente tentará "conduzir o barco" até o final de seu mandato. 



Para o cientista político e professor da UFRJ, Jairo Nicolau, ele diz que foi algo muito expressivo as manifestações e que provavelmente nunca tivemos tanta gente nas ruas do Brasil num mesmo dia, pela mesma causa. É algo que da força a uma onda que começa a se fortalecer de afastamento da presidente. 

Ele nota que na passagem de 2015 para 2016, a ideia do impeachment parecia ter perdido força. No entanto, uma série de fatores reacendeu esse debate. 



O cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, professor da Uerj, acredita que "a partir de agora, com os últimos desdobramentos e a pressão das manifestações, o processo de impeachment tende a ser muito acelerado".

Ele nota que não só a base parlamentar do governo está cada vez menor, como "os empresários estão muito descontentes e também grande parte da sociedade, mesmo que polarizada e dividida".

"A base de apoio da presidente hoje se restringiu à CUT, MST e ala moderada do PT, e a opinião pública está cada vez mais crítica", acrescenta.

Na sua visão, a tendência é que o PMDB deixe o governo – no sábado, a Convenção Nacional do partido definiu prazo de 30 dias para ser tomada uma decisão sobre isso.

"Vemos que a movimentação das elites atualmente, as grandes lideranças políticas e econômicas, já é de discutir um cenário pós-Dilma. Não se sabe como o governo deve acabar. A renúncia é pouco provável, o impeachment é um processo doloroso, e o semiparlamentarismo tende a ser rejeitado pela população, mas o fato é que as elites já dão o fim do governo Dilma como certo", observou.

Monteiro não acredita que as manifestações pró-governo convocadas para dia 18 trarão numa reação forte aos protestos de domingo.

"Quem vai sair às ruas para defender um governo acusado diariamente de corrupção e em meio à uma severa crise econômica? Por mais que alguns possam se surpreender caso o impeachment se concretize, poucas pessoas são capazes de esboçar qualquer reação de defesa do governo neste momento", afirma.



Por fim, para o sociólogo Wagner Iglecias, professor da USP, os protestos de domingo colocam uma "uma pressão enorme" sobre a Dilma.

"A presidente precisará se posicionar sobre as ruas porque é impossível ignorar o que está acontecendo", notou.

Ele nota, porém, uma grande diferença entre os protestos de agora e os que pediram a saída do ex-presidente Fernando Collor em 1992.

"A diferença fundamental é que naquele momento, nos anos 90, o presidente Fernando Collor estava totalmente isolado, porque ali sim as manifestações eram realmente suprapartidárias. Um rol muito grande de forças políticas foram às ruas pedir a saída dele".

Iglesias observa que, apesar do governo mal avaliado, Dilma ainda tem uma base de apoio relevante.





Por BBC Brasil 




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