segunda-feira, 22 de junho de 2015

O que será de Chico daqui há dez anos?




Há alguns dias tive uma experiência não tão boa. Mas reflexiva. Por problemas de saúde, fui no pronto socorro próximo a minha casa e me deparei com uma situação um tanto quanto intrigante. Havia ao meu lado em meio a um lugar lotado e cheio de doentes, uma mulher que me chamou a atenção. A princípio pelo cheiro e a forma de se vestir, depois pela situação ocorrida num curto espaço de tempo, dentre as duas horas que estive por lá.

Essa mulher meus caros, estava com uma criança a seu lado a quem ele chamava de mãe. Aparentava estar na faixa dos quarenta anos, mas duvido que tenha realmente essa idade. Vou explicar porquê. Ora, falando das características físicas dessa mulher da qual vou chamar de Maria. Maria era preta, de uma pele lisa e bonita que quase brilhava, era gorda (creio que mais por parte genética do que por barriga cheia), tinha os cabelos crespos (assiduamente crespos eu diria) e curtos, tão curtos que quase não tinha cabelo. Suas roupas eram largas, ela estava com um chinelo e dava para ver a sola dos pés, pois ambos estavam inclinados: a sola parecia ter uma textura grossa, como um casco. Talvez não estava acostumada a calça-los...

A criança que ela carregava de pseudônimo Chico, era simplesmente linda. Era um menino, demonstrava sua pureza em suas atitudes... Chico não passava dos dois anos creio eu.

Também era negro, seus cabelos tinha o formato “black power”, seus cílios eram arrebitados o que dava um realce naqueles olhos... Grandes e belos castanhos escuros, pareciam duas jabuticabas cintilando. Ah, que olhos! Os olhos de Chico me dava a impressão de ter um mundo neles. Um mundo puro, que mesmo com as dificuldades levava consigo uma esperança única e um fato singular: o de ser simplesmente uma criança. Mas por algum motivo, imaginei como seria o futuro daquele garoto, então esbocei em minha mente Chico daqui há dez anos.

Mas não era muito fácil concentrar-se com ele ao lado. Estava inquieto. Então Maria tirou de sua bolsa de pano dois carrinhos tipo daqueles da Hotweels, só que riscados e deu à ele para ver se ficava quieto. Bom, eu percebendo que o estava incomodando dei a cadeira para ele sentar-se e fui para o banco de trás sem deixar de observá-los.

Chico pôs-se a chorar. Chorava muito então sua mãe deu-lhe uma pequena banana que de tão madura estava quase toda preta. Ele comeu. Mas parecia que aquela fruta não lhe acalmou e pouco tempo depois voltou a chorar. Chorava de fome. E Maria sabia disso, mas era uma mulher calada, de certa forma por conta dessa características me remetia a Fabiano personagem de Vidas Secas-obra de Graciliano Ramos. Mas não foi esse livro que a seguinte situação me lembrou na hora.... Maria levantou a camiseta: “Negras mulheres, suspendendo às tetas magras crianças, cujas bocas pretas rega o sangue das mães (...)”

Foi uma cena forte... A criança chorava de fome e sua boca quando tocou no bico do seio da mãe só sabia sugar aquele leite de forma tão calorosa que era visível que sentia fome.

Castro Alves parece ter descrito melhor que ninguém essa situação em O Navio Negreiro. O livro em si, não fala sobre isso. Mas lembrei-me na hora desse trecho especificamente.

Imaginei tudo naquele instante. Primeiro me admirei com o fato da mãe em meio as dificuldades não ter abandonado aquele menino. Confesso que me deu uma vontade imensa de ajudar, de pegar aquela criança para mim, de cuidar dela... Aquelas lágrimas de fome, aquela inocência tão pura que tanto me encantou...Aqueles olhos tão cheios de Brasil...

Mas veja, o que eu podia fazer? Embora vivessem em condição social inferior, Maria optou por enfrentar a vida, ir à luta, optou por cuidar daquele menino dentro das possibilidades que ela tinha. Ele podia até reclamar que não tinha comida. Mas o pouco de tempo que estive ali, percebi que não lhe faltava carinho... A forma como ela o amamentava, com um olhar distante, parecia querer buscar ou ter algo melhor. Não queria estar ali, daquele jeito. Era ela a paciente, mas imagino que estivesse doente há muito. Não física, mas emocionalmente. Mesmo assim ela deu ao menino o pouco que tinha: o leite e o amor.

Quando entrei para ser atendida, lá estava Maria cabisbaixa. Não posso dizer ao certo se por causa de seu problema de saúde ou se por conta de sua vida. Sei que passados alguns minutos, entraram pela porta daquele pronto socorro, mais três meninos: dois pequenos e um mais velho. Eram os outros filhos de Maria. O maior pegou Chico no colo e o levou consigo.

Maria permaneceu imóvel, ainda cabisbaixa.

Sinceramente eu não sei o que será de Chico daqui há dez anos...



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