terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A morte em discussão




O capitalismo atualmente implantado escancaradamente no nosso meio, coloca as pessoas num visível patamar de submissão. 

O apego ao materialismo por vezes me dá a impressão de se sobrepor à vida. Ora, o dinheiro tende a ser mais valioso que o próprio ser humano, e a morte já não mais ocupa um lugar de elite. Costumo dizer que já não vivemos o antropocentrismo, estamos na era do "dinheirocentrismo". 

Um exemplo nítido de tal fato vemos em relação a impunimento de alguns casos do chamado homicídio culposo (quando não há intensão de matar). 

Um caso que pode servir como base, é uma hipotética situação decorrente de um assassinato no qual um homem bêbado atropela um pedestre, por avançar indevidamente no sinal vermelho em alta velocidade e o motorista mata o pedestre, logo após paga um valor e é solto. Nesse sentido, a família da vítima recebe uma indenização que é indiretamente, quanto valeu avida do indivíduo que fora morto. 

Meu caríssimo leitor, olhando sob esse aspecto, temos em pauta que segundo as normas do tão moderno século XXI, a morte perante a lei tem adquirido um valor monetário, ao invés de ser vista, como algo além (sem envolver claro, a espiritualidade, pelo que a senhorita morte representa, ela merecia mais respeito). O que eu estou querendo dizer, é que a morte em si, tem se mostrado pela sociedade, "materializada", onde o que realmente importa são os bens e poderes aquisitivos e os valores culturais, morais e éticos, são deixados de lado sem a mínima sensibilidade. 

Sabendo dessa forma que a nossa vida custa caro depois da nossa morte, seria interessante a aproveitarmos da melhor maneira possível enquanto ainda a tivermos. 




Falar de morte é sempre algo muito difícil por conta dessa visão nostálgica e melancólica que temos da própria. Até mesmo nos dias de hoje. No entanto, é necessário refletir que o fim da vida significa que nossa presença física deixará de existir. E é ai que você deve parar para pensar: o que fazer com o corpo?

Pois bem, escolher entre doar ou não os órgãos, cremar o corpo, ou enterrá-lo de forma intacta é uma decisão única e inteiramente sua, mas é fundamental que essa escolha deva ser manifestada a seus parentes e/ou amigos.

Agora, nesse exato momento você já sabe que fim pretende dar ao seu corpo? Já manifestou seu desejo a seus familiares?  Se não, o que espera? A morte? Se ela vier hoje por exemplo, talvez seu corpo seja apenas enterrado juntamente com seus órgãos, talvez seus entes resolvam doá-los e amanhã, numa hora dessas alguém já esteja com seu coração, ou até mesmo quem sabe, simplesmente cremado e eu respire as suas cinzas.

Meu querido leitor, partindo do princípio de que sua vida possui um valor monetário após sua morte (dependendo do modo como ela fora executada), pensar no bom proveito de seu corpo é de extrema importância. 

Chegamos então na questão dos órgãos. Ah! Santo órgão! É uma questão realmente pertinente... Doa-los ou não? Mas a grande pergunta que lhes faço é: por que NÃO doa-los? Infelizmente eu ainda não encontrei argumentos para não concretizar o procedimento... 

Em contrapartida, há quem diga que a doação de órgãos seja bobagem. Bobagem porque para alguns, se a pessoa está a beira da morte, deve aceitar seu destino e simplesmente morrer... 

Mas cá entre nós, se a medicina atual nos proporciona a possibilidade de ficar mais um pouquinho nessa vida, não seria interessante aproveitarmos? Sendo assim, se por um acaso você precisar de algum órgão aceitará numa boa o transplante? Então por que não fazer o inverso? A nossa escolha pode realmente fazer uma grande diferença se tratando de vidas... E óbvio, da sua morte. 

Não que você tenha que se suicidar, claro. Não é porque o conceito de "valores" foi invertido que devemos nos tornar adeptos ao "materialismo corporal monetário". Convenhamos que mesmo com a sua ausência física permanente outras vidas poderão ser recuperadas caso a sua, não possa ter a menor chance sequer de ser salva.



Esse apego que a maioria das pessoas têm ao corpo, ao material, ao dinheiro como um todo, tem tirado a chance de se abrir novas mentes, de enxergar além. 

Existe uma cegueira por parte da população que vê como a Justiça tem tido descaso com a questão da morte, "leiloando" indenizações (como se isso fosse suprir a dor de uma perda), mas as pessoas que criticam essa posição megera, são as mesmas que não olham o próximo com compaixão! As mesmas que não refletem que podem de fato contribuir de alguma maneira, como com os transplantes. 

Com essa correria toda atrás do "valor", estão sempre muito ocupados para pensar! E todos desse modo, se isolam em um mundinho de hipocrisia e não fecham os olhos para não imaginar quando estes permanecerão assim para sempre. E talvez quando isso acontecer, se você ainda não tiver manifestado sua vontade, eu de fato estarei respirando as suas cinzas, ou quem sabe, o coração estiver batendo em meu peito seja o seu leitor mortal. Mas duvido que depois desse texto, você queira me dar seu coração... Ah, é mesmo! Você já estará morto. 


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