terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

"A Era do Rádio"



Hoje fica só na lembrança de quem viveu por essa época o que foi os dias em que o rádio era a unica fonte de entretenimento e informação da população, durante um grande momento do século XX. Quem pode contar sobre isso normalmente tem no mínimo sessenta anos, sobre a forma que famílias inteiras se amontoavam diante da pequena caixinha de madeira, para ouvir programas, músicas e os noticiários. 

Stephen King certa vez escreveu sobre isso, sobre os seriados radializados que ouvia junto de seu avó na época, classificando-os como uma arte perdida. Muito dessa era foi realmente perdido, do que passava a quem nela viveu, ou renovou-se no futuro com outro papel. Mas na cabeça de certos autores, com o Sr.King, ela ainda representa muito, quase magicamente. E de todos que tentaram retratá-la ou honrá-la, nenhum conseguiu fazer melhor que Woody Allen, em "Radyo Days", de 1972.

O filme gira em torno de um família de judeus que vivam em Nova Iorque durante os anos pré e durante Segunda Guerra Mundial. Narrado por ele adulto, enquanto conta causos de sua família ou de fatos sobre a época, tendo sempre com epicentro o rádio. 

O humor está impregnado ali em quase todas situações, mas em alguns poucos momentos, puxa para um certo drama, mas sem sair forçado, sem querer alguma reação extra do espectador, simplesmente o joga de forma crua, para transmitir com mais força esta realidade. 

Logo de início a influência do rádio na vida dos personagens fica mais que evidente. O protagonista, por exemplo, quer tentar roubar o dinheiro que deveria juntar para escola judia para ajudar na construção de "uma pátria israelense", desviando-o para adquirir um anel do "Vingador Mascarado", personagem de um seriado que escutava no rádio. Lá a inversão de valores já fica clara. Quero dizer, falam ao garoto o mesmo que falam hoje sobre a internet ou a televisão! Fora, claro, que no caso, o castigo é maior. 

O longa também não se esquece do grande advento dessa época, o programa que noticiou a "A guerra do mundos" como verdadeira, fazendo seus ouvintes realmente acreditarem que uma invasão marciana estava acontecendo, e levando todos ao pânico generalizado. Coisas incríveis como essa realmente só acontecem uma vez na história. 

Outro ponto interessante a se destacar é a maravilhosa trilha sonora do filme. Impregnado de jazz (como em todos filme do Sr.Allen) conta também com duas músicas de Carmen Miranda, e completamente em português! Talvez não seja pra tanto, mas isso realmente foi inesperado. 

Uma das personagens do filme é uma atriz, que vai a Nova Iorque para (vejam só) ser uma estrela do rádio. Olha a semente do que é Hollywood aí. Como não se trata de uma simples comédia pastelona, o filme explora bem esses aspectos sociais. Claro, satirizando-os ao máximo. Como o anti-semitismo que se propagava também por lá, a falta de emprego e a economia estável. Mas longe de tratar isso com drama, mágoa ou qualquer coisa. Simplesmente foi. Mas para falar sobre os comunistas americanos, bem... para esses ele não se poupa. Quando a dita família esta reunida para passar o feriado em jejum e longe de qualquer coisa que os interesse (como o rádio, lógico), e a casa ao lado, uma família comunista começa a ouvir musica ás alturas. Bem, de alguma forma no desenrolar da situação, sem querer entregá-la por completo, o o pai de família judeu simplesmente... vira comunista ("Mas por quais pecados eu tenho que jejuar? Eu não fiz nada! A religião é o ópio do povo. Devíamos estar trabalhado"). Um filme de Woody Allen sem uma crítica dessas não é um filme completo. 

Não seria exagero dizer que esse seja um dos melhores filmes do diretor (e são muitos, e a maioria muito boa). A série de situações cômicas e inusitadas conquista qualquer um, e no final do filme, impossível não ficar com aquele gostinho de quero mais (bem, no caso, da pra aproveitar que ele já tem mais de 40 filmes em sua carreira). Os traços indiscutíveis do seu estilo estão lá, junto com um saudosismo gigante por essa época mágica. 

E, deve-se dizer, não da pra escutar o rádio da mesma forma agora sabendo de tudo isso.


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