sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Para cada número, um rosto

Operários de Tarsila do Amaral


Números, números em todo o lugar. Olhe uma pesquisa, lá estão eles. Olhe uma média sobre algum assunto, e eles também dão as caras, a titulo de credibilidade. "A cada x de entrevistados, x dizem tal coisa; a cada x pessoas, x fazem determinada coisa; a cada x dias, x coisas acontecem; a cada x numero de pessoas, x pensam de tal forma; e cada x dias, x pessoas tiram a própria vida". Não vemos isso todos os dias? E há coisa mais fria que isso?

Esse pensamento só seria mais frígido se quem o formata jogasse cubos de gelo na cara do leitor. Ou não. O fato é que números (esses gigantes cegos) não traduzem sentimentos, não trazem historias, só ilustram situações que não temos de fato noção de grandeza. Números não tem consciência. Nossa sociedade conhece-os bem, até demais eu diria, para seu próprio mal, mas não tem ideia do que representam - ou podem representar- sob nenhum aspecto. Mas citamo-los a todo momento, os malditos!

Mesmo em nossas catástrofes, não pensamos nos indivíduos, vemos somente números. E, o mais horripilante, preocupamo-nos com valor do cifrão e não o da vida. Quanto ao holocausto judeu, tema tão trabalhado em salas de aulas, e um dos acontecimento mais tenebrosos de nossa historia - não o único, temo dizer, e não o ultimo - o conhecemos em grande maioria por seu estrondoso número. Mas o quanto pensamos realmente nessa catástrofe? Quantos minutos são gastos pensando no que nessa insanidade monstruosa e seu real significado, ao invés de pensar sobre o viés econômico que o ocasionou e que ocasionou.

Claro, ao tratar de tal tema, é necessário certa cautela, existem muitas controvérsias. Politicas, principalmente. É um momento histórico complicado de trabalhar. Entretanto, a cada fato que possa ser apresentado sobre a guerra e seus outros aspectos, uma foto. Antes de falar sobre economia ou ideologia, antes veja a imagem que retrata com perfeição, se tal termo puder ser usado, o sofrimento em espécie pura. A cada número, um rosto.

Trago a tona tal genocídio pelo seu impacto em nosso mundo, porém sabemos que não foi o único, e talvez existam exemplos piores, e não é preciso ir muito longe ou voltar tanto na historia para achar. Mas qual o significado disso? e o que isso faz de nós? Certa vez, em uma aula de historia, foi exibida uma imagem com diversos judeus mortos, empilhados, da forma mais desumana. Vê-la entristeceu-me, porém não mais que perceber que os outros alunos nesse momento conversavam, ignorando-a... Alguns riam entre si. O que isso faz de nós, tenho medo da resposta.

Fatos como esses, números como esses, dos quais já nos acostumamos, nos empurram cada vez mais para um buraco, do qual será difícil sair. Reverter tais atrocidades, infelizmente, é impossível. Mas podemos evitar que se repitam, estas e aquelas em "menor escala". Simples, talvez, mais simples que construir uma maquina do tempo, seria simplesmente nos apaziguarmos pelo sofrimento alheio. Um homem, a muito tempo, disse para amarmos o próximo, e sofreu por isso. Não sigamos tal conselho, e onde esse caminho nos levou? A que ele outro, que a muito foi deixado para trás, não deveria ser escolhido? Não pretendo tocar na metafísica, a presunção de responder qualquer pensamento a respeito não cabe a mim, porém se isso não traz um sentimento superior, não sei o que traz. Acreditemos na utopia, mas não naquela que venha junto ao nome as palavras vazias como mercado, dinheiro, economia. Jogue fora o número, e traga o sentimento. Jogue fora o vazio, e traga a paz.



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