quinta-feira, 3 de abril de 2014

Um dia de legging

Nessa onda de polêmicas sobre estupros, se a culpa é minha se a culpa é sua, se a culpa é da mulher ou se a culpa é do homem, escolhi este texto que encontrei no portal R7 escrito por Marcella Franco que relata como é o dia de uma mulher vestida com uma calça legging. Vale a pena a leitura.



Antes de começar, preciso que você olhe no meu olho. Não na minha virilha, mas no-meu-OLHO. Aqui em cima, colega. Mais um pouquinho, mais. Isso, melhor.

Este, aliás, é um belo resumo do dia de hoje, em que resolvi vestir uma legging para trabalhar, levar e buscar filho na escola, ir ao mercado, jantar com a família: quando se está vestindo uma legging, é como se sua cara ficasse invisível.

Você vira uma xoxota ambulante. Seus olhos, sua boca e sua alma se transferem para a região pélvica, e não há meios de fazer com que te mirem em outra parte do corpo que não aquelas cobertas pela legging.

Porque, né, a legging COBRE o corpo. Igual à calça jeans da minha amiga de bancada, igual à saia da moça na fila do restaurante da firma, estou COBERTA por roupas. Não vim pelada. Mas, sério, não é o que parece.

Ainda estamos no meio da tarde, e até agora já fui comida por uns 37 homens.

Eles chegam, dão oi pras minhas coxas, e então seguem batendo papo com meu quadril. Se despedem com dois beijinhos de bochecha, mas sem tirar a vista da legging preta de vinil.

E olha que nem gostosa eu sou. As fotos estão aí pra comprovar.

Sou magrela, ossuda, peso 55 kg. Não tenho bunda, me sobra culote, e a celulite quase que aparece por baixo do tecido. Enfim, não sou nenhuma assistente de palco, e mesmo assim virei atração de circo na rua.

Na verdade, eu hoje queria ter vindo de pijama. Mas como não pode, senão me demitem, pensei em qual seria a roupa mais confortável do meu armário, e assim separei a legging. Antes tivesse vindo com uma calça velha de moletom.

É o porteiro, é o manobrista no estacionamento, é o executivo atravessando a rua, é o segurança da escola, é o engravatado na fila do quilo. Todo mundo olhando como se eu estivesse cagada. De legging & cagada.

Daí a gente pensa, né, como é que essa gente toda faz quando vai à praia? Fica de pau duro babando tarado enquanto come milho cozido e seca a mulherada? Porque, mano, se uma calça colada desperta este ogro que mora em você, qual o efeito que tem uma bunda de fio dental sobre o seu cérebro?

Eram umas onze da manhã quando resolvi tomar a primeira providência.

Já que não dava pra voltar pra casa – JURO que desejei poder trocar de roupa -, me refugiei no banheiro do trabalho e, de olho no espelho, baixei a calça o máximo que dava. Com pata de camelo é que eu não arrisco ficar.

Com o cavalo da legging quase no tornozelo, virei de costas e puxei a blusa tentando cobrir o pedaço de bunda (que bunda?) que ainda aparecia. Que situação. E se eu botar uma folha sulfite entre a calcinha e a calça, será que marca menos? Alguém tem um moletom pra eu amarrar na cintura?

Talvez eu deva passar o dia todo sentada. Cadê mesmo aquele cardápio do delivery do japonês?

Minha garrafinha de água está vazia, mas nem fodendo que eu vou ao bebedouro. A menos que eu consiga acioná-lo de costas, será? Oi, querido, xuxu, psiuzinho, enche minha garrafa pra mim?

Três da tarde, e aqui estou eu, refém da cadeira giratória. Que Deus seja generoso e não me dê vontade de fazer xixi. Sorte, muita muita muita sorte essa bolsa que escolhi pra hoje, com uma alça carteiro que vai dar certinho pra cobrir as partes enquanto caminho e termino de resolver os afazeres do dia.

Este é um dia de legging, amiguinhos, um dia de muita confiança, descontração e movimento. Um dia em que você acha incrível ter nascido fêmea, agradece à sociedade e corre feliz no meio da rua. Um dia para dar um google em “burcas”, só pra ter uma noção de quanto custaria renovar todo o guarda-roupa. Um dia pra sentir vergonha do próprio corpo, das suas escolhas e da sua liberdade.

Este é um dia de legging, leitora querida. Um dia I-GUAL-ZI-NHO a todos os outros na vida da gente.



Texto e perfil completo da autora você pode ver clicando aqui

Gostaríamos muito que vocês deixassem nos comentários sua opinião sobre esse assunto e sobre a polêmica que está envolvendo os culpados sobre os estupros. 

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